sobre o trabalho: setembro de 2014


Meu interesse sobre desenho como modo operatório se desdobra, por um lado, sobre o funcionamento dos signos gráficos e sua relação com os referentes; por outro, a atenção ao performativo em desenho, sua duração e permanência, a reflexão a respeito do papel do gesto e do engajamento corporal no ato de traçar.

A ‘Coleção de medições” começou a se formar em 1999. Neste conjunto de trabalhos, fragmentos de espaços, objetos, lugares, mapas e plantas arquitetônicas, reunidos ao longo dos anos, são notados por meio de mensuração direta ou indireta, frotagem, fotografia ou croqui. O conjunto de notações constitui um banco de dados a partir do qual são produzidos instalações, desenhos sobre o chão, imagens digitais e animações que recombinam os elementos da coleção, em geral reproduzidos em escala.
 
Nas ‘Estruturas’, produzidas desde 2005, parto da observação de objetos naturais: formigueiros, folhas, brotos, organismos microscópicos. A observação das formas é a base para desenhos sucessivos que buscam a compreensão de seu funcionamento, do modo como crescem ou se acumulam. Num conjunto iniciado em 2014, observo particularmente estruturas pulsantes como as de medusas, raias, águas‐vivas ou células cardíacas e seus movimentos que respondem à mecânica dos fluídos, resistentes e flexíveis.
 
As performances e vídeos surgem como desenvolvimento de certos aspectos do trabalho. Os ‘Walkfields’ e ‘Urban Drawings’, desenvolvidos entre 2000 e 2001, experimentam a relação entre corpo e medidas objetivas de um espaço. A instalação ‘9 quartos’ gerou uma animação digital (‘9 quartos em ciclo’) que explorou a relação entre minha memória dos espaços e a duração de minha vida. A ação implicada no desenhar das ‘Estruturas’ está na origem das séries de vídeos ‘Formações’, ‘Desenhos de memória’ e ‘Tábula rasa’. Nestas duas últimas séries, desenhar e apagar, com giz ou sobre uma base de plastilina, problematiza o fazer e o pensar a forma e sua prevalência sobre ao existência do objeto perene.
 
Esses diversos grupos de obras se conectam pela ideia de acúmulo e de recobrimento, funcionando em sistema, interdependentes.

Adalgisa Campos, setembro 2014.

O espectador emancipado - Jacques Rancière

"Dir-se-á que o artista, ao contrário, não quer instruir o espectador. Hoje ele se defende de usar a cena para impor uma lição ou transmitir uma mensagem. Quer apenas produzir uma forma de consciência, uma intensidade de sentimento, uma energia para a ação. Mas supõe sempre que o que será percebido, sentido, compreendido é o que ele pôs em sua dramaturgia ou sua performance. Pressupõe sempre a identidade entre causa e efeito. Essa igualdade suposta entre a causa e o efeito baseia-se num princípio desigualitário: baseia-se no privilégio que o mestre se outorga, no conhecimento da 'boa' distância e do meio de eliminá-la. Mas isso é confundir duas distâncias bem diferentes. Existe a distância entre o artista e o espectador, mas existe também a distância inerente à própria performance, uma vez que, como espetáculo, ela se mantém como coisa autônoma, entre a ideia do artista e a sensação ou a compreensão do espectador. Na lógica da emancipação há sempre entre o mestre ignorante e o aprendiz emancipado uma terceira coisa - um livro ou qualquer outro escrito - estranha a ambos e à qual eles podem recorrer para comprovar juntos o que o aluno viu, o que disse e o que pensa a respeito. O mesmo ocorre com a performance. Ela não é a transmissão do saber ou do sopro do artista ao espectador. É essa terceira coisa de que nenhum deles é proprietário, cujo sentido nenhum deles possui, que se mantém entre eles, afastando qualquer transmissão fiel, qualquer identidade entre causa e efeito." (p. 19)

"O poder comum aos espectadores não decorre de sua qualidade de membros de um corpo coletivo ou de alguma forma específica de interatividade. É o poder que cada um tem de traduzir à sua maneira o que percebe, de relacionar isso com a aventura intelectual singular que o torna semelhante a qualquer outro, à medida que essa aventura não se assemelha a nenhuma outra. Esse poder comum da igualdade das inteligências liga indivíduos, faz que eles intercambiem suas aventuras intelectuais, à medida que os mantém separados uns dos outros, igualmente capazes de utilizar o poder de todos para traçar seu caminho próprio. O que nossas performances comprovam - quer se trate de ensinar ou de brincar, de falar, de escrever, de fazer arte ou de contemplá-la - não é nossa participação num poder encarnado na comunidade. É a capacidade dos anônimos, a capacidade que torna cada um igual a qualquer outro.
(...)Ser espectador não é a condição passiva que deveríamos converter em atividade. É nossa situação normal. Aprendemos e ensinamos, agimos e conhecemos também como espectadores que relacionam a todo instante o que veem ao que viram e disseram, fizera e sonharam. Não há forma privilegiada como não há ponto de partida privilegiado. " (p. 20 - 21)

RANCIÈRE, Jacques. Benedetti, Ivone C (trad). O espectador emancipado.  São Paulo, Martins Fontes, 2012.

espirais: setembro, outubro 2014